A Reforma da Liturgia Romana – Mons. Klaus Gamber

julho 9, 2025 Por admin 0

A obra “A Reforma da Liturgia Romana” foi publicada originalmente em alemão no final da década de 1970 com o título Die Reform der Römischen Liturgie, num contexto de profundas mudanças litúrgicas pós-Vaticano II. Mons. Klaus Gamber, renomado liturgista alemão, apresentou uma análise crítica dos rumos tomados pela reforma litúrgica após o Concílio, destacando-se pelo rigor histórico e teológico de sua abordagem. 

Esta obra possui originalmente duas partes. A primeira parte intitulada “A Reforma da Liturgia Romana: Seus Problemas e Bastidores” e a segunda “Voltados para o Senhor: Sobre a construção de igrejas e a orientação para o Oriente na oração”. Nesta edição publicamos apenas a primeira parte que julgamos ser a mais importante.

A nossa tradução utilizou como fonte a edição espanhola disponível em forma de ebook no site Una Voce, cotejada com a edição inglesa de 1983 traduzida diretamente da versão original em alemão pela Una Voce Press (San Juan Capistrano, California – EUA).

 

Sobre o Autor

Monsenhor Klaus Gamber nasceu em 23 de abril de 1919, em Ludwigshafen, às margens do Reno. Serviu como soldado por seis anos durante a Segunda Guerra Mundial. Foi ordenado sacerdote em 29 de junho de 1948, em Regensburg. Dedicou-se ao trabalho pastoral, que teve de abandonar devido a uma grave doença. Em 1957, cofundou e tornou-se Diretor do Instituto de Ciência Litúrgica em Regensburg, sendo seu maior interesse o estudo da liturgia nas Igrejas Ocidental e Oriental. Permaneceu nesse cargo até sua morte, em 2 de junho de 1989, aos 70 anos de idade.

Monsenhor Gamber obteve doutorado em teologia e, posteriormente, recebeu o título de doutor honoris causa em filosofia. Em 1958, tornou-se membro honorário da Pontifícia Academia Litúrgica em Roma, foi nomeado capelão do Papa em 1965 e, em 1966, seu camareiro secreto.

 

Prefácio à Edição Francesa (1991)

Não se pode fabricar um movimento litúrgico — mas pode-se contribuir para o seu desenvolvimento esforçando-se por reabsorver o espírito da liturgia e defendendo publicamente aquilo que se recebeu. Esse novo começo precisa de “pais”, que sirvam de modelos… Aqueles que hoje procuram por tais “pais” sem dúvida encontrarão Mons. Klaus Gamber, que, infelizmente, nos foi tirado cedo demais, mas que talvez, justamente ao nos deixar, tenha se tornado ainda mais presente entre nós, com toda a força das perspectivas que nos abriu. E precisamente porque, ao morrer, ele escapou das disputas entre partidos, pode, neste tempo de aflição, tornar-se o “pai” de um novo começo. Gamber apoiou de todo o coração as esperanças do antigo movimento litúrgico. Sem dúvida, como vinha de uma escola estrangeira, permaneceu um forasteiro no cenário alemão, que era relutante em admiti-lo; recentemente, uma tese encontrou grandes dificuldades porque o jovem pesquisador ousou citar Gamber com muita frequência e favoravelmente. Mas talvez o fato de Gamber ter sido ostracizado tenha sido providencial para ele, pois o obrigou a seguir seu próprio caminho e evitar a trilha do conformismo.

É difícil dizer em poucas palavras o que é importante nessa disputa entre liturgistas e o que não é. Mas talvez o seguinte seja útil. J. A. Jungmann, um dos verdadeiramente grandes liturgistas do nosso século, definiu a liturgia de seu tempo, tal como pode ser compreendida à luz da pesquisa histórica, como uma “liturgia que é fruto do desenvolvimento”…

O que aconteceu após o Concílio foi algo totalmente diferente: no lugar da liturgia como fruto do desenvolvimento, surgiu uma liturgia fabricada. Abandonamos o processo orgânico e vivo de crescimento e desenvolvimento ao longo dos séculos e o substituímos — como em um processo industrial — por uma fabricação, um produto banal feito no improviso. Gamber, com a vigilância de um verdadeiro profeta e a coragem de uma autêntica testemunha, opôs-se a essa falsificação e, graças ao seu conhecimento incrivelmente vasto, ensinou-nos incansavelmente sobre a plenitude viva de uma verdadeira liturgia. Como alguém que conhecia e amava a história, mostrou-nos as múltiplas formas e caminhos do desenvolvimento litúrgico; como alguém que contemplava a história de dentro, viu nesse desenvolvimento e em seus frutos o reflexo intangível da liturgia eterna, aquela que não é objeto de nossa ação, mas que pode continuar maravilhosamente a amadurecer e florescer se nos unirmos intimamente ao seu mistério. A morte deste eminente homem e sacerdote deve nos impulsionar; sua obra deve nos dar um novo ânimo.

Cardeal Joseph Ratzinger

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